Thursday, October 26, 2006

O sonho (post ficcional delirante)

Hoje tive dos melhores sonhos que já tinha tido com a minha mãe. Foi magnífico e não posso explicar aos leitores deste blogue que não tenham, alguma vez na vida, perdido alguém pela morte (porque há várias maneiras de perdermos as pessoas, e qual delas a mais complicada!) o que é sonhar com essa pessoa feliz e descansada. É que eu nunca sonho assim com ela. Ela está sempre doente, ocupada, em baixo – se calhar porque a maior parte da vida esteve assim, ou porque infelizmente a dor da doença e da perda me custaram muito.

Neste meu sonho eu tinha tido um filho e ela felicitava-me muito, estava muito contente. Talvez porque a minha mãe sempre tivesse querido um neto, mas não chegou a ver. Neste sonho consegui, como em poucos, agarrá-la, senti-la, abraçá-la, sentir-lhes o rosto, a textura do casaco, a maquilhagem, o cabelo, as mãos, os anéis. Estava à porta da casa dela, estava lá o meu pai e diversos vizinhos em redor a verem o bebé. Então a minha mãe, resplandecente, dizia: «a minha filha está muito bem». Com a novidade deste sonho, em que a minha mãe estava feliz, pensei que me tivesse acontecido uma boa nova, sem ser a de ir novamente a Roma, como está agendado, e percorri o meu dia pensando que coisa extraordinária me iria acontecer hoje.

Fui almoçar com as minhas amigas à faculdade, e, para além de receber o meu presente de casamento ultra-esgotado da Loja do Gato Preto (que elas arranjaram depois de percorrerem as lojas todas), recebi a novidade que encheu o meu dia de luz e de alegria: a Sandra está grávida. Está bem, não sou eu que estou (se calhar estou alegre por isso!), mas o meu sonho, afinal, teve um significado. A boa nova tem nove semanas e já anda a passear na barriga da Sandra, que hoje tinha outro sorriso.

Então pensei nestes últimos textos que tenho escrito, dos mais amargos aos mais luminosos, e parece-me bem que estou saudavelmente a enlouquecer, porque ando a ver anjos e demónios em todo o lado, significados ocultos nas palavras, nos acontecimentos e nos sonhos. A Patrícia ofereceu-me há uns tempos o «Livro dos Médiuns» do Alan Kardec, e vejo que não deveria lê-lo à noite com tanta frequência. De há uns tempos para cá tenho tido a sorte de ver anjos de luz. Um deles estava no meu sonho (a minha mãe) outro estava sobre a Sandra, e antes de saber a boa-nova vi-o. Também estava um ao pé da Elisabete quando o Sérgio nasceu, ali bem ao lado (não, não era a senhora que escarrava). Portanto, tenho mesmo capacidades fenomenais: para o melhor e para o pior.

É evidente que tudo isto se liga à energia das pessoas, que quando flui de forma positiva transborda, por isso é evidente que quer a Lisa quer a Sandra estavam felizes nos momentos que referi. Mas está para além disso. É uma energia finíssima que atravessa as pessoas, uma luz branca, transparente, que quase cega. A minha amiga Diana também tem isso, uma aura diferente que eu nunca lhe sei explicar, mas que ela acha muito estranho que todas as pessoas com poderes mediúnicos lhe digam que tem.

Para o que me havia de dar hoje, logo eu que sou tão racional que até a mim me dói. Mas deve ser para disfarçar a tristeza profunda que sinto, porque não posso estar com a minha mãe e tenho de esperar por um sonho para lhe perguntar as coisas, nem sempre obtendo respostas certas. Hoje não me apetece racionalizar. Estou simplesmente em estado de comoção e estou febril. Este reencontro com ela deixou-me estarrecida, aparvalhada, petrificada.

Hoje deu-me para a esquizofrenia. Passei-me, como dizem os loucos. Óbvio que não fiz nada, porque sei bem que não estou louca, apenas delirante, mas consciente. Então vi também, pela primeira vez, o anjo que está sobre mim. É um anjo guerreiro, com uma enorme espada na mão e eu tenho de desenhá-lo. É enorme e está pronto a cortar cabeças. O da Diana é tão pacífico…que inveja! O meu anjo é o da justiça e é poderoso, mas ao mesmo tempo procura a sensatez das suas acções. À noite o meu anjo não brame a espada, tem-la quieta, pousada e está sentado ao pé de mim, a ouvir os meus sonhos, que são a minha maior fonte de conhecimento humano, porque a minha parte racional dorme. Então ele lê os meus sonhos como se de um livro se tratasse, e de manhã pousa-o à cabeceira, voltando a bramir a espada.

Muitas vezes não lhe ligo e ele não fica contente comigo. Perdoa-me e volta a tentar que eu perceba que a minha função no mundo é lutar contra demónios interiores e exteriores, afastá-los da minha luz, precipitá-los na escuridão e nas trevas, sem jamais fazer cair as peças boas deste puzzle que é o universo. Essa é a parte difícil da minha tarefa no mundo: destruir os maus sem deixar os bons em agonia. Mexer cuidadosamente as peças do xadrez. Montar o dominó sem caírem peças. Mas eu explico isso ao anjo e ele, furioso, pede-me a cabeça de todas as xoxas velhas. E eu digo, não pode ser, olha que as peças boas caem…O anjo não gosta de mim parada, quer movimento, acção, quer-me a aprender as forças do universo e diz que eu sou preguiçosa em demasia, não as estudo, não as procuro, tenho-as dentro de mim e disfarço-as neste blogue. Diz-me o anjo: és um atraso de vida, tens capacidades e só investes nos outros, a ver se os modificas, e eles já não mudam. E brame a espada, brame a espada, furioso comigo. E eu, uma jovem sossegada, penso que o silêncio é uma estaca incontornável, acho que muitas vezes devemos ficar cuidadosamente calados, esperando que dos males saia o bem. A verdade é que o anjo tem mesmo razão. Eu devia bramir a minha espada muito mais vezes.

2 Comments:

At 3:00 PM, Blogger XaninhA said...

Afinal não sou só eu que sou rica em sonhos! (mas decerto sou pobre em ouro - e euros!):p
No dia em que vires o meu anjo, tu diz-me! Escuso de comprar o teste de gravidez! lol E apesar de tudo o que se possa pensar, isto que eu estou a dizer é verdade. Eu acredito mesmo em ti.
(Continua com os) Bons sonhos :)*

 
At 5:18 AM, Blogger fercris77 said...

Lolol...sim, os meus sonhos feliz ou infelizmente fazem (quase todos) sentido.

eijinhos.

 

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