Tuesday, June 06, 2006


As relações humanas

Mais uma vez me debruço nas relações humanas, tema da minha inteira preferência. Há muitos anos atrás, quando eu andava no 9º ano, talvez com quinze, dezasseis anos, tive de fazer uma escolha profissional. Na altura era um momento crucial (ainda hoje é, para todos os garotos a quem dei aulas do 9º ano parecia ser), e ainda fui fazer testes psicotécnicos, que, quanto a mim, é das piores coisas que se pode fazer. A psicóloga era uma mulher magra, feia, sempre a fumar, muito antipática, que fazia umas listas tipo supermercado a ver quantos pontos tínhamos em cada área (hoje chama-se agrupamento). No meu caso, ciências tinha mais pontos do que letras. Mas eu segui letras, extremamente convencida de que nunca seria boa aluna a ciências, não tinha inteligência nem capacidades. Portanto, segui letras por cobardia, mas também por um profundo amor à escrita. Não era daqueles miúdos com médias baixas que queriam ser médicos. A minha média era a mais alta e, mesmo assim, não me achava capaz de ir para medicina. Se tivesse ido para ciências, seria talvez engenheira química, farmacêutica, bióloga. Mais uma vez por cobardia.
A maior parte das decisões cruciais que tomamos na vida são bastante egoístas, cobardes e pouco relacionadas com o que sonhámos para nós próprios. Se é verdade que às vezes nos enganamos, também é verdade que, muitas das vezes, não escolhemos o que queríamos por não podermos, não querermos ou simplesmente por preguiça. No meu caso foi consciente. Eu queria letras, antes de mais, mas, acima de tudo, eu não me achava capaz de ser médica. Na minha família queriam que eu fosse porque «era bonito», uma razão claramente imbecil. Um médico, um dos bons, nasce feito e depois pratica o ofício. Se só praticar o ofício arrisca-se a dar cabo da vida a muitas pessoas, ou simplesmente a dar cabo da vida a ele próprio.
Anos mais tarde, a minha avó continua a dizer que eu devia ter sido médica porque lhe receitava medicamentos de graça. Tenho a certeza que, se tivesse seguido a carreira, teria sido um grande problema para mim, porque me veriam como a milagreira, a curandeira de pais e avós. E isso nenhum médico é, muito menos quando um doente não se quer tratar. Teria gritado o dobro com os meus avós, ter-me-ia chateado o dobro ou o triplo com os meus pais, e, estou certa, as mesmas pessoas estariam mortas, na família. Um médico não faz milagres, muito menos a gente teimosa.
Há uns anos tive uma depressão que me ajudou a perceber que sou, essencialmente, uma mulher de letras. Tudo me impressionava, perdi capacidades de gestão das emoções, fui-me completamente abaixo e tinha vontade de gritar com todas as pessoas que comprimiam a minha liberdade – e que, infelizmente, ainda comprimem. Tinha ataques de pânico e ainda passei uns meses valentes a medicamentos, que nunca me curaram das causas das doenças, nem das mazelas. Tudo continua cá. Como poderia eu ter sido médica, se não sei gerir as minhas próprias emoções? Sem isso, ninguém ajuda o próximo.
Ainda por cima, se eu fosse médica, unia isso àquilo que mais gosto de estudar: as emoções, os relacionamentos entre as pessoas. Ao fim e ao cabo é aquilo que menos compreendo e é aquilo que é menos compreendido nos livros. Essa parte é toda a nossa vida, é o fulcro que dá ânimo e move o resto. Se estamos a sofrer, se somos mortos-vivos sem destino fixo, o nosso corpo vai abaixo, definha, perde forças, deprime e comprime tudo. Quase todos os problemas têm a sua raiz e explicação nesta parte, exceptuando casos em que de facto não podemos relacionar uma coisa com a outra.
Ao longo da minha vida, tenho observado atentamente as pessoas e concluído que, na sua maioria, as pessoas fazem o contrário do que querem, no fundo de si mesmas. Têm empregos de que não gostam e para os quais nunca apresentaram qualquer vocação, têm maridos e mulheres que lhes diminuem a auto-estima, apesar de terem sonhado com príncipes e princesas encantados, vivem em casas que nada têm a ver consigo mesmas, têm famílias que aturam contrariadas. Poucas pessoas são verdadeiramente livres, e por isso poucas são verdadeiramente felizes. Conheço meia dúzia. As pessoas mais frágeis escolhem companheiros e companheiras que lhes fazem mal, que transtornam e tranformam aquilo que são para pior. Quase sempre, na vida, ganham as pessoas interesseiras, desligadas das emoções. Não conquistam por amor. Mas também não sofrem por amor nem pela falta dele. Certamente não são estas que consultam psiquiatras nem psicólogos.
Quando eu tive a depressão, concluí que era muito frágil. Apercebi-me, pela primeira vez na vida, que esse era o meu patamar vivencial e não passava dele. Tenho poucas relações de persuasão, interesse, custo-benefício, o que quiserem chamar. Tenho poucas relações vazias, que não me façam pensar na vida, no futuro, no amor, na conquista. Não estou a dizer que isto é certo ou errado. Há que pensar com honestidade…o que ganhamos com a sinceridade, a bondade? Ganhamos amizades fantásticas, conquistamos um amor sincero, todavia não derrotamos o inimigo. As pessoas maldosas continuam maldosas, tornam-se ainda mais pérfidas connosco, se for preciso, porque bondade é sempre associada a palermice, e conquistam à mesma um grande amor, embora normalmente por dinheiro ou outro interesse qualquer.
Aparentemente, a vida faz cada vez menos sentido. Enquanto uns casam por interesse e têm tudo o que querem, outros casam por amor e pedem o divórcio. Enquanto uns mimam os filhos e os filhos são uns crápulas, outros batem-lhes e eles tornam-se doutores. Enquanto mulheres sem-vergonha, prostitutas desenxabidas, fazem sexo por dinheiro, outras dedicam-se de corpo e alma a um homem sem coração. Enquanto uns homens não ligam aos sentimentos da companheira, outros ligam demais e são enganados sem nunca vislumbrarem a verdade das coisas. Enquanto damos importância a pessoas que nos enganam, não ligamos a pessoas de coração limpo que passam na nossa vida. Enquanto uns ganham fama de mentirosos e falsos sem o serem, outros nunca têm o rótulo e são de facto mentirosos de corpo e alma.
Somos nós que nos dirigimos para caminhos errados, ou foi a vida que nos levou por aí? Quando é que damos conta que a vida não é nada do que sonhámos? Eu dei-me conta quando saí da faculdade. Não tinha emprego, a minha mãe morrera há pouco tempo, fiquei encarregue de muitas coisas que nunca quis, fui sempre esmagada por ideias e estereótipos, comparações estúpidas aos outros. Até hoje, nunca saí de casa e conto com quase trinta anos. É frustrante. Chegada a esse ponto, tive de me preocupar com outros assuntos, tive de desenhar outros sonhos no horizonte.
Não existem potes de ouro do outro lado do arco-íris. Existem umas moedas de ouro pelo caminho, que ora espreitamos ora nem vemos. Uns sabem recolhê-las ardilosamente, outros nunca chegam a perceber que elas estão lá. Somos todos seres humanos sem livros de instruções. Só podemos saber uma parte de tudo, diz um ditado africano. E na verdade, ninguém sabe tudo. Há vivências que custam muito.
Olhando para trás, o quanto eu não gostaria de ter sido médica. Psiquiatra. Ouvir horas a fio pessoas diferentes de mim (ou não). As pessoas são as suas emoções, espelham esse mundo desconexo. O quanto eu gostaria que algumas pessoas me dissessem que encontraram moedas de ouro no caminho, e que eu contribuí para essa descoberta. O quanto eu gosto de ouvir as pessoas que têm emoções sinceras a expressá-las. Só cinco anos depois da morte da minha mãe compreendi que esta é a minha grande vocação: observar, estudar o riso e o choro das pessoas, compreender as emoções. Perante toda a raiva que sinto, diariamente, pelas injustiças de que sou vítima (e vejo os outros serem), fecho-me muito nas minhas próprias emoções, tentando explicá-las, verbalizá-las, escrevê-las. Sou uma romancista, no sentido de traçar os percursos das pessoas pelas emoções. Mas não sei apontar caminhos, limito-me a descrevê-los e a julgá-los. Moralizo demasiado.
Como médica, teria de me habituar, ab initio, a ver morrer, a ver casos desesperantes, pelos quais nada há a fazer, a ver casos sem solução, e a conviver com a injustiça do mundo, que é a de uns terem tanto, sendo tão pouco merecedores, e outros terem tão pouco, lutando a vida toda por isso. Como pessoa, tenho todos os dias de aprender a lição de sofrer e ver sofrer tentando aprender com isso, de ser injustiçada e de ver injustiçados a cair nas mãos de gente inescrupulosa. Tenho de me habituar que nem sempre há perdão ou redenção para toda a gente. Tenho de perceber que nem sempre os maus são castigados e nem sempre os bons têm recompensa.

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