Monday, November 05, 2007

Roma

Semprei gostei da palavra e agora que a palavra ganhou um correlativo objectivo, ou seja, uma correspondência visual e conceptual, a palavra encheu-se de significado. Roma ao contrário é Amor. Que romântico…
Este texto só vai fazer sentido para a Diana Frol, que acha Roma tão romântica quanto eu. Desculpem, mas vou desfazer o mito nas vossas cabeças. Roma não tem nada de romântico, excepto o barco que vai para Trastevere, cujo barqueiro deve ser neurótico e grita com as pessoas. É romântico por causa da paisagem…ao longe. Ao longe o Vaticano é belíssimo, a cúpula é uma maravilha. Ao longe e à noite, quando não está lá ninguém, excepto os japoneses a dispararem os seus flashes incessantemente. Como eu digo sempre, o Vaticano já foi mais fotografado do que o cu da Princesa Diana ou a… da Paris Hilton. Tirando o Vaticano, alguns monumentos sumptuosos e muitas ruínas, Roma é suja e grotesca. Tem uma quantidade de imigrantes ilegais que provoca arrepios da espinha.
Em Roma, quem são os romanos? Ninguém sabe, até porque aos fins-de-semana eles escondem-se noutras casas de férias, pelo menos os mais ricos, um velho hábito romano, pelo que sei. Eu sou sempre confundida com uma romana, não por usar casacos de pele ou botox na boca, mas porque atravesso como as velhas romanas, olho zangada para os carros e depois ignoro-os, enquanto praguejo, corro sempre e reparo sobretudo nas motas, que são perigosas porque se esgueiram por entre os carros. À noite, esta míope tem muito medo das motas, confesso. Raramente petrifico numa passagem de peões, mas às vezes acontece. E os condutores praguejam. É uma cidade cheia de gente mal-educada, incivilizada. Como diria o irmão da Paula, é uma cidade badalhoca. Muito mesmo.
Da primeira que cá estive fez um Inverno rigoroso, usei barrete todos os dias, o guarda-chuva foi necessário e fazia tanto frio que eu nunca pensei ser possível haver tantos turistas num sítio tão gelado. Mas havia e eu achei excepcional, visto que aqui não se pode esquiar. Da segunda vez o Inverno foi menos rigoroso e estava sol, pouco usei o guarda-chuva. Havia tantos turistas que eu nem conseguia chegar ao Vaticano. Lembro-me de uma vez em que os japoneses eram tantos e atravessavam à balda num dia de chuva, que eu fui o caminho todo a praguejar até à porta dos arquivos. Ainda bem que ninguém percebia…Comecei a fazer o caminho mais comprido até ao Vaticano – portanto a levantar-me mais cedo – e acabei por tirar uma nova e brilhante conclusão: havia ainda mais turistas e eu chegava sempre atrasada. Posso dizer que esta é a terceira vez que venho e ainda não descobri nenhum caminho sem turistas aos magotes (estamos a falar de excursões daquelas em que há pessoas de cadeiras de rodas e bebés a bordo, portanto em que tudo é possível). O que significa que aqui o turismo devia encher os bolsos dos cofres de Roma, e possivelmente de toda a Itália. Mesmo assim, os donos das lojas são empertigados, convencidos, irritantes e facilmente irritáveis (basta que não se saiba falar italiano, o que é o mais comum).
Se eu vivesse aqui dava em doida. Lisboa consegue ter muito mais espaço do que Roma e eu em Lisboa envergonho-me de ver turistas a assistirem a más educações, conduções perigosas, buracos e obras mal sinalizados, aqui ninguém parece importar-se.
Roma é interessante, sem dúvida. Tem sempre coisas para visitar e eu faço muitas vezes viagens peregrinas, como sair em cada uma das paragens de metro e ver o que há para ver. Claro que nem tudo é perto do metro, mas há sítios circundantes com igrejas, basílicas e monumentos diversos. Há também locais a temer e a evitar, como o Termini, que tem o maior número de pessoas bêbedas e feias por metro quadrado, com ruas de lojas chinesas e indianas. Aqui ainda não se renderam aos centros comerciais e é raro encontrar um.
Os italianos parecem ter um carácter volátil. Ou são muito bem dispostos ou muito agressivos. É difícil classificá-los sem ser com um palavrão. Cada vez mais me apercebo que são racistas e completamente alheados dos turistas, o que é estranho, tendo em conta que a cidade é povoada de turistas (deve ser o hábito).
Tenho os dois lados da moeda romana: as coisas boas para visitar e as menos boas para aturar, como em qualquer cidade onde se viva. Gosto na mesma, não vou dizer que não, o Vaticano tem sempre a sua beleza, de manhã, ao entardecer, à noite. Roma é sempre bonita, apesar da tremenda confusão. Apesar de tudo, é uma cidade a visitar no roteiro turístico e que viverá no meu coração para sempre, por outros motivos, pessoais, inomináveis, adversos, simpáticos, oportunos e inoportunos.

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